Lei Maria da Penha, 20 Anos Depois: Uma Luta que Continua a Cada Dia
Há exatos 20 anos, era sancionada a Lei Maria da Penha, um dos principais marcos no combate à violência contra as mulheres no Brasil. Ao definir a violência doméstica, a lei nº 11.340/2006 enfrentou à naturalização das agressões que aconteciam, em geral, entre quatro paredes. Embora o país tenha alcançado avanços importantes a partir dessa lei, ainda há desafios como a subnotificação, a dificuldade no acesso à Justiça e os altos índices de feminicídio. Só em 2025, foram 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil, um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde a tipificação dess
Há duas décadas, o Brasil deu um passo decisivo para romper com o silêncio que normalizava a violência contra a mulher dentro de casa. A sanção da Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, representou um marco civilizatório ao nomear, definir e criminalizar a violência doméstica e familiar. Vinte anos depois, celebramos as conquistas, mas encaramos de frente os desafios que ainda nos impedem de garantir uma vida livre de violência para todas as brasileiras.
A lei foi um divisor de águas. Antes dela, agressões contra mulheres eram frequentemente tratadas como crimes de menor potencial ofensivo, muitas vezes resultando em punições simbólicas, como o pagamento de cestas básicas. A Lei Maria da Penha mudou essa perspectiva, estabelecendo que a violência doméstica é uma das formas de violação dos direitos humanos e criando mecanismos para coibir e prevenir essa prática. No entanto, a persistência de altas taxas de agressão e feminicídio mostra que a existência de uma lei robusta, por si só, não basta. É preciso garantir sua aplicação plena e fortalecer a cultura de respeito e proteção.
Um Marco na Luta Contra a Violência Doméstica
O maior avanço trazido pela Lei Maria da Penha foi tirar a violência doméstica da esfera privada e tratá-la como um problema de toda a sociedade. Ao definir cinco formas de violência — física, psicológica, sexual, patrimonial e moral —, a legislação ofereceu às mulheres um vocabulário para identificar e nomear as agressões que sofriam, muitas das quais eram sutis e não deixavam marcas visíveis.
A lei também criou instrumentos fundamentais para a proteção das vítimas. Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e, principalmente, as medidas protetivas de urgência se tornaram ferramentas essenciais para afastar o agressor e garantir a segurança da mulher e de seus filhos. A possibilidade de solicitar que o agressor seja proibido de se aproximar ou de manter contato com a vítima deu a muitas mulheres a coragem necessária para denunciar e buscar ajuda.
Essa estrutura legal fortaleceu a mensagem de que o Estado tem o dever de proteger suas cidadãs e que a agressão dentro de casa não é um "assunto de família", mas um crime que exige uma resposta firme do poder público.
Os Desafios que Persistem Duas Décadas Depois
Apesar dos inegáveis progressos, a realidade ainda é dura para milhões de brasileiras. Um dos maiores obstáculos continua sendo a subnotificação. Muitas mulheres não denunciam seus agressores por uma complexa combinação de fatores: o medo de represálias, a vergonha, a dependência financeira e emocional, a preocupação com os filhos e a desconfiança na efetividade do sistema de justiça.
O acesso à Justiça também é um desafio. Em muitas cidades, especialmente em áreas rurais e remotas, faltam delegacias especializadas, casas-abrigo e uma rede de apoio estruturada. A jornada de uma vítima, desde a decisão de denunciar até a obtenção de uma medida protetiva e o acompanhamento do processo, pode ser longa, burocrática e revitimizadora, exigindo uma força que muitas, já fragilizadas pela violência, não possuem.
É fundamental que o poder público invista na capacitação de agentes de segurança, profissionais de saúde e do sistema judiciário para que o acolhimento seja empático, respeitoso e eficiente, encorajando mais mulheres a buscarem ajuda.
Feminicídio: Quando a Violência Atinge seu Ponto Máximo
Os números são um alerta contundente de que a luta está longe de terminar. A violência doméstica, quando não interrompida, pode escalar até seu desfecho mais trágico: o feminicídio. Apenas em 2025, o país registrou 1.568 mulheres vítimas de feminicídio, um crescimento de 4,7% em comparação ao ano anterior.
Esses dados revelam uma falha coletiva em proteger quem mais precisa. Cada feminicídio é a crônica de uma morte anunciada, muitas vezes precedida por um histórico de ameaças, agressões e pedidos de socorro ignorados. A tipificação do feminicídio como crime hediondo foi um passo importante, mas a prevenção é o caminho mais eficaz. Isso significa garantir que as medidas protetivas sejam cumpridas, monitorar os agressores e oferecer à vítima uma rede de apoio real e funcional.
A Importância da Rede de Apoio e da Denúncia
Romper o ciclo de violência não é uma tarefa solitária. A atitude de familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho pode ser decisiva para salvar uma vida. Estar atento aos sinais, oferecer escuta sem julgamento e informar sobre os canais de ajuda são formas concretas de apoiar uma mulher em situação de violência.
Denunciar é um ato de coragem e um direito de toda cidadã. Se você está vivendo uma situação de violência ou conhece alguém que esteja, não hesite em procurar ajuda.
- Polícia Militar (190): Acione em casos de emergência, quando a agressão está acontecendo.
- Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180): Oferece escuta, orientação e encaminhamento para denúncias. O serviço é gratuito, confidencial e funciona 24 horas por dia, em todo o país.
- Disque Direitos Humanos (Disque 100): Canal para denunciar violações de direitos humanos.
- Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs): Procure a DEAM mais próxima para registrar um boletim de ocorrência e solicitar medidas protetivas. Na ausência de uma, qualquer delegacia de polícia tem o dever de registrar a ocorrência.
O Futuro da Proteção: Educação e Políticas Integradas
Os 20 anos da Lei Maria da Penha nos convidam a uma reflexão profunda sobre o que ainda precisa ser feito. A mudança cultural é o pilar que sustentará os avanços legais. É preciso investir em educação para a igualdade de gênero desde a infância, discutir masculinidades saudáveis e combater o machismo estrutural que alimenta a violência.
A proteção das mulheres exige políticas públicas integradas, que garantam não apenas a segurança, mas também a autonomia econômica e o apoio psicossocial para que elas possam reconstruir suas vidas. A responsabilidade é de todos nós: do Estado, ao garantir a aplicação da lei e a estrutura de acolhimento; e da sociedade, ao não se calar diante da violência.
A informação empodera, a prevenção salva e a proteção é um direito. Que os próximos anos sejam de avanços concretos e de um compromisso renovado com a vida e a dignidade de todas as mulheres.
Sua atitude pode salvar vidas.
BASTA. Informação. Prevenção. Proteção.